Festival
Lavorada
19 e 20 de junho de 2026
Biblioteca Municipal
Rocha Peixoto
Póvoa de Varzim
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“Impacto dos lavores no bem-estar emocional e psicológico”
1. A Associação Lavorada
Em 2021 nasceu o Lavorada – O Festival dos Lavores. O que começou como um projeto individual, inspirado no Dia Mundial de Tricotar em Público, rapidamente se transformou numa iniciativa mais ampla. Desde o início, o objetivo foi claro: abrir a roda do tricô a todos os lavores, promovendo o encontro, a partilha e a reflexão sobre as múltiplas áreas do conhecimento para onde estas práticas nos podem conduzir.
Ao longo dos três anos seguintes, o projeto foi crescendo, reunindo pessoas em torno de um propósito comum e concreto. Esse percurso coletivo culminou na criação da Associação Lavorada, resultado natural de um trabalho contínuo de colaboração e construção partilhada.
Hoje, o Lavorada afirma-se como o reflexo de um grupo que acredita no poder dos lavores para chegar a mais pessoas, criar ligações e expandir horizontes.
2. Enquadramento | Ponto a Ponto: O Início da Compreensão
A presente exposição nasce de um trabalho de investigação desenvolvido pela Associação Lavorada, centrado na compreensão do papel dos lavores enquanto prática de potencial impacto no bem-estar emocional e psicológico. Num contexto contemporâneo marcado por ritmos acelerados, aumento do stress e crescente procura de estratégias de autorregulação emocional, torna-se particularmente relevante olhar para práticas simples, manuais e tradicionais que possam contribuir para o equilíbrio interno e para a promoção da saúde mental.
Os lavores — como o bordado, tricot, crochet, costura e tapeçaria — constituem atividades manuais baseadas em movimentos repetitivos, atenção sustentada e envolvimento criativo. Embora frequentemente associados a tradições familiares e culturais, estas práticas têm vindo a ser reinterpretadas à luz da psicologia contemporânea como possíveis ferramentas de autorregulação emocional, atenção plena e redução da ativação fisiológica associada ao stress.
Do ponto de vista psicológico, a realização de lavores envolve processos cognitivos e emocionais relevantes. A repetição dos gestos pode induzir um estado de calma semelhante ao da meditação, favorecendo a diminuição da ansiedade e promovendo a concentração no presente. Paralelamente, a produção de objetos tangíveis gera uma sensação de progressão e concretização, reforçando a autoestima e o sentimento de competência pessoal. Estes fatores contribuem para uma experiência subjetiva de bem-estar que vai além do simples passatempo, assumindo-se como uma prática potencialmente terapêutica.
O estudo que fundamenta esta exposição foi desenvolvido através de um questionário elaborado pela Associação Lavorada, com o objetivo de explorar de forma aprofundada a prática dos lavores e compreender o seu impacto no bem-estar emocional e psicológico dos participantes. A investigação procurou captar não apenas a frequência e o tipo de atividades realizadas, mas também as motivações subjacentes, os significados atribuídos pelos praticantes e as perceções relativamente aos efeitos emocionais da prática.
A recolha de dados foi realizada de forma voluntária e anónima, assegurando a confidencialidade das respostas e permitindo a expressão genuína das experiências individuais. Este aspeto foi fundamental para captar a diversidade de vivências associadas aos lavores, desde práticas mais recreativas até rotinas profundamente integradas no quotidiano dos participantes.
Com um total de 332 respostas válidas, o estudo apresenta uma base significativa para análise, permitindo identificar tendências consistentes e compreender a relevância desta prática em diferentes contextos de vida. Os dados recolhidos evidenciam não apenas padrões de utilização dos lavores, mas sobretudo o seu papel enquanto estratégia de gestão emocional, promoção de relaxamento e fortalecimento do equilíbrio psicológico.
Assim, esta exposição propõe-se dar visibilidade a estas dimensões frequentemente invisíveis dos lavores, valorizando-os enquanto prática cultural, social e emocionalmente significativa. Mais do que uma atividade artesanal, os lavores são aqui apresentados como um espaço de pausa, criação e reorganização interna, onde o gesto manual se transforma num instrumento de bem-estar e de ligação consigo próprio e com os outros.
3. Caracterização da Amostra | As Mãos por Trás dos Fios: Quem Participou
O presente estudo permite traçar um retrato claro dos participantes envolvidos, revelando um perfil relativamente homogéneo, mas simultaneamente representativo de diferentes fases da vida e contextos sociais.
A idade média dos participantes situa-se nos 53 anos, abrangendo um intervalo alargado entre os 12 e os 78 anos, o que evidencia que a prática dos lavores atravessa gerações distintas, desde jovens em início de aprendizagem até adultos e idosos com uma relação mais consolidada com esta atividade.
Em termos de género, verifica-se uma forte predominância feminina (98%), refletindo a persistência histórica e cultural dos lavores enquanto prática tradicionalmente associada às mulheres, embora o seu significado contemporâneo esteja progressivamente a evoluir.
Relativamente à escolaridade, destaca-se a presença maioritária de participantes com Licenciatura ou Mestrado (61,1%), seguida por indivíduos com Ensino Secundário (25%). Estes dados sugerem uma elevada heterogeneidade formativa, indicando que a prática dos lavores não está limitada a um nível de escolaridade específico, sendo transversal a diferentes percursos académicos.
No que diz respeito à situação profissional, sobressaem os participantes ativos (67,8%), seguidos pelos reformados (18,1%), o que reforça a ideia de que os lavores são praticados tanto como atividade de equilíbrio no contexto laboral, como também enquanto ocupação estruturante na fase pós-profissional.
Este conjunto de dados permite compreender que, apesar de algumas tendências dominantes, os lavores constituem uma prática ampla e socialmente diversificada, atravessando idades, contextos profissionais e níveis de escolaridade, o que reforça o seu caráter universal enquanto atividade de bem-estar e expressão pessoal.
4. Perfil da Prática de Lavores | Fios de Continuidade: A Presença dos Lavores no Dia a Dia
Os resultados revelam que os lavores ocupam um lugar estável e significativo na vida dos participantes, constituindo uma prática consolidada ao longo do tempo e integrada nas suas rotinas diárias. Mais do que uma atividade ocasional, os lavores surgem como um hábito duradouro, associado ao prazer, à criatividade e ao bem-estar.
A experiência acumulada dos participantes é particularmente expressiva: 69,9% praticam lavores há mais de 10 anos, evidenciando uma ligação prolongada a estas atividades manuais. Este dado sugere que os lavores não representam apenas um interesse passageiro, mas antes uma prática que acompanha diferentes fases da vida, adaptando-se às necessidades, interesses e circunstâncias de cada pessoa.
A frequência da prática é igualmente elevada. Cerca de 75,3% dos participantes dedicam-se aos lavores mais de duas vezes por semana, demonstrando que estas atividades ocupam um espaço regular no quotidiano. Esta presença frequente pode contribuir para a criação de momentos de pausa, concentração e equilíbrio, particularmente importantes num contexto social marcado pela aceleração dos ritmos de vida.
O forte envolvimento emocional com os lavores é também evidente. Quando questionados sobre o seu grau de interesse, 62% afirmaram gostar “extremamente” desta prática, revelando uma relação marcada pelo entusiasmo, satisfação e sentido de realização pessoal. Este elevado nível de apreciação reforça a ideia de que os lavores constituem uma fonte de prazer intrínseco, para além dos produtos finais que resultam do trabalho manual.
Entre os diferentes tipos de lavores praticados, destacam-se o tricot (81,3%) e o crochet (73,5%), assumindo-se como as atividades mais representativas da amostra. Seguem-se a costura (36,7%) e o bordado (35,5%), que continuam a reunir um número significativo de praticantes. Os restantes tipos de lavores apresentam uma expressão inferior a 15%, refletindo uma maior diversidade de práticas menos comuns.
No seu conjunto, estes resultados demonstram que os lavores são muito mais do que um passatempo. São uma atividade enraizada no quotidiano de muitas pessoas, capaz de gerar envolvimento, satisfação e continuidade ao longo do tempo, constituindo uma parte importante das suas rotinas e experiências de vida.
5. Entre Fios e Emoções: O Poder dos Lavores no Bem-Estar Psicológico (Exposição baseada num estudo da Associação Lavorada sobre motivações, emoções e efeitos dos lavores no bem-estar psicológico e social.)
• 91% praticam lavores pela satisfação pessoal e realização
Os resultados do estudo revelam que a prática dos lavores é impulsionada, sobretudo, por motivações de natureza emocional e pessoal. Mais do que uma atividade produtiva ou ocupacional, os lavores surgem como uma experiência significativa que proporciona satisfação, bem-estar e realização individual.
Este resultado demonstra que os lavores constituem uma fonte importante de prazer e de valorização pessoal, permitindo acompanhar o progresso de um trabalho, superar desafios criativos e concretizar ideias através das próprias mãos.
• 87,7% dos participantes encontram nos lavores uma forma de relaxar e reduzir o stress
A concentração exigida pelos movimentos repetitivos, a atenção aos detalhes e o ritmo próprio dos lavores parecem favorecer estados de tranquilidade e desaceleração mental, funcionando como uma pausa face às exigências do quotidiano. No entanto, os benefícios desta prática vão além do simples relaxamento, envolvendo mecanismos psicológicos complexos que contribuem para o equilíbrio emocional e para a promoção do bem-estar.
Ao dedicar-se a uma atividade manual estruturada, a pessoa direciona a sua atenção para uma tarefa concreta e para o momento presente. Este foco reduz a tendência para a ruminação — o processo de pensar repetidamente em preocupações, problemas ou acontecimentos negativos — frequentemente associado à ansiedade, ao stress e ao mal-estar psicológico. Ao concentrar-se no gesto, na textura dos materiais, na contagem dos pontos ou na evolução da peça, a mente afasta-se temporariamente das fontes de tensão, permitindo uma sensação de alívio e descanso mental.
Os movimentos repetitivos característicos dos lavores podem também induzir um estado semelhante ao observado em práticas de atenção plena (mindfulness). A repetição ritmada dos gestos promove uma experiência de envolvimento tranquilo, em que a atenção permanece. Este processo contribui para a regulação emocional, reduzindo os níveis de ativação fisiológica associados ao stress e favorecendo sensações de calma, segurança e estabilidade.
Por outro lado, os lavores oferecem algo que muitas atividades do quotidiano nem sempre proporcionam: uma sensação clara de controlo. Esta experiência de domínio e previsibilidade pode aumentar a perceção de segurança psicológica e diminuir sentimentos de sobrecarga emocional.
A própria progressão visível do trabalho desempenha um papel importante no bem-estar. Cada ponto realizado é, por si só, uma pequena conquista que contribui para um objetivo maior. A observação do progresso ao longo do tempo gera sentimentos de competência, eficácia e realização, reforçando a confiança em si próprio. Esta experiência é particularmente relevante porque permite que a pessoa visualize concretamente os resultados do seu esforço, fortalecendo a autoestima e o sentimento de concretização pessoal.
Em muitos casos, quem pratica lavores descreve ainda experiências próximas do conceito psicológico de estado de fluxo (flow), caracterizado por um envolvimento profundo na atividade, em que a perceção do tempo se altera e as preocupações externas perdem relevância momentânea.
• 44% encontram nos lavores uma forma de criar laços, fortalecer o sentimento de pertença e combater o isolamento social
A dimensão social emerge como um dos aspetos mais significativos da prática dos lavores. 44% dos participantes identificam o convívio social como uma das suas principais motivações, evidenciando a importância das relações e das redes de apoio que se desenvolvem em torno destas atividades.
Do ponto de vista psicológico, os lavores constituem muito mais do que uma oportunidade de encontro. Os grupos, oficinas e comunidades de partilha criam espaços seguros de interação, onde as pessoas podem estabelecer ligações significativas, partilhar experiências e sentirem-se reconhecidas pelos outros. Este sentimento de pertença é uma necessidade humana fundamental, associada a níveis mais elevados de bem-estar emocional, autoestima e satisfação com a vida.
Para muitas pessoas, especialmente em contextos de solidão ou de isolamento social, os lavores funcionam como uma ponte para a participação comunitária. Através da partilha de conhecimentos, da colaboração e da identificação com interesses comuns, fortalecem-se os laços sociais.
• 38% transformam os lavores numa forma de partilhar talento, criar valor e fortalecer a autoestima
Para 38% da amostra, os lavores assumem um significado que ultrapassa a esfera individual, traduzindo-se na criação de presentes para oferecer ou de peças destinadas à venda. Esta motivação revela uma dimensão particularmente rica da prática: a possibilidade de transformar criatividade, tempo e dedicação em algo que pode ser partilhado e valorizado por outras pessoas.
A possibilidade de concluir uma peça e vê-la ganhar um propósito na vida de outra pessoa contribui para um profundo sentimento de concretização. O resultado não representa apenas um produto acabado, mas a materialização de horas de aprendizagem, dedicação e expressão criativa. Este reconhecimento — seja emocional, social ou económico — fortalece a autoestima e reforça a perceção de que o esforço investido possui valor e significado.
• 94% reconhecem os lavores como fundamentais para o seu bem-estar físico, emocional e psicológico
Os resultados evidenciam que a prática dos lavores é amplamente reconhecida pelos participantes do estudo como uma atividade com um impacto significativo no bem-estar psicológico, emocional e na qualidade de vida. Esta valorização consistente sugere que os lavores não são apenas uma atividade recreativa, mas um recurso psicológico relevante no quotidiano dos indivíduos.
Do ponto de vista psicológico, a elevada importância atribuída a esta prática pode estar associada ao facto de os lavores proporcionarem estruturas de estabilidade, previsibilidade e controlo, fatores particularmente importantes para a regulação emocional. Num contexto de vida frequentemente marcado por exigências externas e ritmos acelerados, atividades com estas características funcionam como âncoras de equilíbrio interno.
A maioria dos participantes (56%) considera os lavores extremamente importantes para o bem-estar geral, o que indica que esta prática é percecionada como um elemento estruturante na promoção da saúde global.
Acrescentando a esta tendência, 38% classificam-nos como muito importantes, reforçando a ideia de que existe um reconhecimento generalizado do seu contributo para o equilíbrio emocional. Esta valorização pode ser compreendida à luz de mecanismos psicológicos como a autoeficácia, o sentimento de competência e a experiência de concretização pessoal associada ao processo criativo.
Quando analisado o bem-estar emocional e psicológico, os resultados mantêm-se consistentes, sugerindo que os participantes associam os lavores a processos de regulação emocional, sensação de estabilidade interna e melhoria do estado psicológico geral. Estas associações são frequentemente explicadas pela capacidade da atividade de favorecer a concentração no presente, reduzindo a ruminação e promovendo estados de atenção focada semelhantes ao mindfulness.
No seu conjunto, os dados indicam que os lavores são percecionados não apenas como uma atividade de lazer, mas como uma prática psicologicamente significativa, que contribui para o equilíbrio emocional, a construção de significado pessoal e o fortalecimento do bem-estar subjetivo.
6. Conclusão
Os resultados desta exposição evidenciam, de forma consistente, que a prática dos lavores assume um papel significativamente positivo no bem-estar psicológico, emocional e social dos seus praticantes. Mais do que uma atividade manual ou recreativa, os lavores revelam-se uma prática com múltiplas dimensões de impacto, capazes de influenciar a forma como as pessoas gerem emoções, constroem significado e experienciam o quotidiano.
A análise dos dados demonstra que os lavores estão fortemente associados a estados de relaxamento, redução do stress e melhoria da disposição emocional, funcionando como um recurso eficaz de regulação emocional. Através da concentração, da repetição dos gestos e do envolvimento no processo criativo, os participantes encontram um espaço de pausa mental que favorece o equilíbrio interno e reduz a sobrecarga psicológica associada ao ritmo acelerado da vida contemporânea.
Para além dos efeitos emocionais, destaca-se igualmente o contributo dos lavores para o desenvolvimento pessoal, nomeadamente através do reforço da criatividade, do sentimento de realização e do aumento da confiança individual. O processo de transformar uma ideia em algo concreto permite experienciar progresso, competência e autoeficácia, fatores essenciais para o bem-estar psicológico.
A dimensão social revela ainda assim a importância dos lavores na promoção do sentimento de pertença e na redução do isolamento social. Os espaços de partilha e aprendizagem coletiva contribuem para o fortalecimento de relações interpessoais e para a criação de redes de apoio significativas.
De forma global, os participantes reconhecem claramente a relevância desta prática, atribuindo-lhe elevada importância na sua qualidade de vida e bem-estar geral. Este reconhecimento reforça a ideia de que os lavores não devem ser entendidos apenas como um passatempo, mas como uma prática com valor psicológico, emocional e social.
Assim, conclui-se que os lavores constituem uma forma de cuidado psicológico e emocional, onde o gesto manual se transforma em equilíbrio interno, expressão pessoal e construção de bem-estar.
Bibliografia
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